Histórias de um colecionador - Arisclenio Antunes

Histórias de um colecionador - Arisclenio Antunes

Nas redes sociais sou mais conhecido pela alcunha de Arisclenio Antunes. Mas este não é o meu nome de batismo, apenas uma junção de dois apelidos dados por amigos. Um deles só me chama de Arisclenio porque diz que sou parecido com um amigo dele de infância. O Antunes é de Arnaldo Antunes, ex-Titãs, pois alguns amigos me achavam parecido com ele quando mais jovem.

Meu verdadeiro nome é Marcelino Alves Teixeira e aprendi a gostar de quadrinhos antes mesmo de aprender a ler, ao conhecer as revistas da Turma da Mônica, que eram das minhas primas. Eu olhava os desenhos e via os balões de diálogo e queria entender o que eles estavam dizendo, então esta foi uma grande motivação para aprender a ler. Meu primeiro gibi Disney foi o Almanaque Disney nº 1 que ganhei do barbeiro onde cortava o cabelo. Enquanto esperava minha vez, vi o gibi em cima de uma mesinha e peguei para olhar as figuras. Logo de cara, a primeira história era da Branca de Neve e os Sete Anões, mas haviam também os sete anões maus e o mago Mandrago, que me impressionaram e não larguei mais o gibi enquanto o barbeiro cortava meu cabelo.

Então ao final, ele disse que eu poderia ficar com aquele gibi, que já era bastante usado. Logo que aprendi a ler, percebi que os gibis Disney se tornariam os meus preferidos, pois as histórias não eram tão infantis quanto as da Mônica, da Turma do Pernalonga, Luluzinha e Bolinha etc. Através deles aprendi sobre muitos lugares do mundo real, fatos históricos, curiosidades do mundo animal, além de me divertir com as histórias dos personagens, principalmente o Pato Donald, Tio Patinhas e os trigêmeos Huguinho, Zezinho e Luizinho.

Logo que vi nas bancas o Manual do Escoteiro Mirim, pedi às minhas tias para me comprarem, pois eu era muito pobre e não poderia ter acesso de outra forma que não fosse ganhar de outras pessoas. Acabei tendo quase toda a coleção de manuais publicados pela Abril, exceto alguns que não me interessavam na época. Ganhei também uma coleção de 4 livros ilustrados de capa dura em um box chamada “Os 4 Mundos Encantados da Disney” que não larguei mais até terminar de ler todas as histórias.

Então um dia encontrei em um cômodo cheio de tranqueiras da casa da minha avó, duas caixas de papelão lotadas de gibis que haviam pertencido a uma das minhas tias. Haviam gibis do Mandrake, do Fantasma, Luluzinha, Bolinha, Brasinha, Popeye, Archibaldo, Tarzan e Diabolik. A mim parecia que havia encontrado duas arcas do tesouro.  Eu ingenuamente pensei que se pedisse as revistas para mim, me seria negado. Então fui “surrupiando” de uma em uma para ler e quando juntava 10, levava na feira para trocar em uma banca de gibis usados a dois por um.

Claro que eu trocava por gibis Disney e dava preferência ao Almanaque Disney e Disney Especial por conta do maior número de páginas. E assim, acabei trocando todos os gibis das duas caixas por Disney. Mas estes também depois de lidos, voltavam para a banca, em troca de gibis que eu ainda não havia lido. Eu não tinha TV em casa na época e pouco podia sair à rua, então ler era o meu passatempo preferido, não só gibis, mas também livros que ganhei na época, como A Ilha do Tesouro e O Conde de Monte Cristo. 

Meu hábito pela leitura se estendeu por toda adolescência, mas não o hábito de colecionar. Depois de ler e reler algumas vezes os gibis, eu os trocava por outros e só não me desfazia dos livros. Então passei a ler também outros gibis como dos heróis da DC e da Marvel, Spirit, Asterix, Fantasma, Tarzan, Popeye, Conan e revista MAD. Cheguei a colecionar apenas Graphic Marvel, edições especiais da DC, The Spirit e Asterix da Editora Record. Durante os anos 80 eu fiquei super fã das HQs nacionais da Disney, principalmente do Peninha, do Morcego Vermelho, da Patada e do Clube dos Heróis e sempre que os via nas bancas, eu comprava. Mais tarde, com a chegada da internet, parei de comprar livros e revistas, pois bastava fazer uma busca para encontrar tudo que eu queria na tela do PC.

Anos depois voltei a comprar apenas edições especiais como “Pateta Faz História”, Mega, Jumbo e Big. Com o fim das publicações da Editora Abril, eu voltei a comprar em encalhes tudo que encontrava da Disney e de lá pra cá a coleção só vem aumentando, incluindo as publicações da Culturama que consigo comprar a preços promocionais, sendo que recomecei a 2 anos e já chega a quase 400 itens, metade ainda na fila de leitura, o que é uma coleção muito modesta comparada com as de muitos amigos que conheci através dos grupos Disney do Facebook.

E foi através de grupos como o Disneyanos do Marcelo Borba e do Disneymania do Reinaldo Garcia que conheci o trabalho de mestres como Carl Barks, Don Rosa, Floyd Gottfredson, Paul Murry, Casty, Renato Canini, Ivan Saidenberg, Carlos Edgard Herrero e passei a interagir com muitos nomes ligados aos quadrinhos Disney como Marcelo Alencar, Gustavo Machado, Júlio de Andrade Filho, Gerson Luiz Teixeira, Fabio Figueiredo, Fernando Ventura, Paulo Borges, Primmagio Mantovi,  Luciano Gatto (que escaneou 96 páginas a meu pedido e me enviou por e-mail uma HQ italiana de 1995 inédita no Brasil desenhada por ele dos 7 anões maus), Moacir Rodrigues Soares, que conheci pessoalmente em uma palestra do Paulo Maffia, entre outros. E também foi através do grupo Disneyanos que fui ao Festival Guia dos Quadrinhos em 2019 com a participação da Culturama onde conheci pessoalmente o artista italiano Francesco Guerrini, o qual tive o privilégio de me sentar ao seu lado numa confraternização em uma pizzaria de São Paulo, com a participação dos membros da editora e pessoas do grupo.

Me tornei também um fã, seguidor e amigo do desenhista espanhol que trabalha pra Disney europeia, Tony Fernandez, que me enviou de presente 4 desenhos originais e 2 prints do Morcego Vermelho feitos por ele diretamente de Barcelona, cujo personagem ele não conhecia e ficou encantado quando lhe mostrei através de fotos uma miniatura que eu fiz.

Então graças a este entrosamento com estas pessoas, me reacendeu o interesse por conhecer mais profundamente este universo dos personagens Disney, interagir com seus criadores, entre roteiristas e desenhistas e claro, manter uma coleção tanto das HQs clássicas como das novas edições da Culturama, que espero continue por muitos anos publicando histórias inéditas e traga de volta a produção nacional, que figura entre as melhores do mundo, melhores até que as italianas, com nosso humor característico e que encantou uma enorme geração de leitores.

Agradeço ao Marcelo Borba, grande colecionador e criador do grupo Disneyanos por me indicar para contar a minha história, mais de leitor do que de colecionador propriamente dito e a Rafa da Culturama, por entrar em contato e me dar a oportunidade de escrever meu relato, o de um fã apaixonado pelos quadrinhos, personagens e autores da Disney. 

 

Texto por: Arisclenio Antunes