A importância das HQs no desenvolvimento das crianças

A importância das HQs no desenvolvimento das crianças

Há muitos anos as histórias em quadrinhos (HQs) têm gerado fascínio nas crianças (em adultos também, é preciso dizer) e contribuído para que os pequenos se sintam motivados a ingressar no mundo da cultura escrita. Atentos a isso, muitos educadores já perceberam a importância de incorporar em suas aulas atividades de leitura e escrita que envolvam esses textos híbridos tão queridos pela população infantil.

Nesse sentido, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC)¹, homologada em 2017, reconhece o caráter singular desse gênero, que mistura a linguagem imagética e a linguagem verbal, com características de humor e irreverência. Em diversos trechos desse documento, há menções acerca da necessidade do desenvolvimento de práticas de linguagem que envolvam a leitura, escrita e análise linguística/semiótica de HQs. Em especial, dentre as habilidades previstas no componente curricular de Língua Portuguesa, do 1° ao 5° ano está:

Construir o sentido de histórias em quadrinhos e tirinhas, relacionando imagens e palavras e interpretando recursos gráficos (tipos de balões, de letras, onomatopeias).

Apesar desse reconhecimento, ainda existem entre educadores e pais questionamentos sobre a validade das HQs na aprendizagem da leitura e da escrita: Será que não vai atrapalhar a alfabetização? São textos muito fáceis, as crianças não precisam de textos mais formais? É uma leitura adequada para os pequenos?

Vamos tentar responder a essas perguntas aqui.

Primeiramente, é preciso saber que as histórias em quadrinhos são tão relevantes quanto os livros com ilustrações (típicos da literatura infantil) como forma de leitura acessível e adequada para o desenvolvimento de habilidades leitoras das crianças. Esse tipo de leitura vai ao encontro das necessidades infantis, e muito disso tem a ver com a natureza híbrida das HQs.

Na literatura destinada ao público infantil, as imagens são fundamentais no processo de interação entre o leitor e o texto, pois alcançam eficientemente a forma de pensamento mais globalizador e intuitivo, próprio da infância.

O segundo ponto a ser destacado é que não se trata de uma literatura fácil. O fascínio das crianças pelas histórias em quadrinhos não está na pouca profundidade das histórias ou no vocabulário de simples, mas sim resulta exatamente do fato de esse gênero propiciar um processo de interação mais apropriado à predisposição psicológica da infância.

Além de apresentarem as características já citadas comuns às histórias em quadrinhos, os gibis da Disney trazem outros elementos que merecem ser considerados nas práticas de mediação de leitura. Longe de serem histórias ingênuas, que reduzem o potencial do leitor infantil, as HQs da Disney respeitam seu público, pois trazem enredos que permitem aos leitores possibilidades de ampla construção de sentidos daquilo que leem. Mais ainda, as narrativas são desafiadoras em termos estéticos, trazem estratégias gráficas (traços, cores, papel) que prendem a atenção do leitor e utilizam a linguagem em sua possibilidade lúdica, com seleção e associação de vocabulário inusitadas.

Outra particularidade é que os gibis da Disney estão em sintonia com o momento histórico de criação de suas narrativas. Nas histórias em quadrinhos atuais, você entrará em contato com tramas em que Mickey, Donald, Pateta e seus amigos lidam com smartphones, redes sociais e outros elementos da cultura digital, conectados à realidade vivenciada pelas crianças hoje em dia.

Neste pequeno texto, a intenção foi a de expor o potencial das histórias em quadrinhos para o desenvolvimento de habilidades de língua escrita. Como já dito no início, há muito sabemos do encantamento das crianças pelas histórias em quadrinhos, e, agora, espero que, cada vez mais, os gibis estejam presentes em seu planejamento pedagógico contribuindo para o desenvolvimento do hábito de leitura das crianças.

A alfabetização, muito além do que o processo de aprender a ler e escrever, é a porta de entrada para uma melhor compreensão do mundo e uma atuação consciente na sociedade.
Infelizmente, em nosso País, ainda não temos números considerados satisfatórios em relação à alfabetização de nossa população: permanecemos um grande número de analfabetos, em especial entre os mais velhos, e muitas de nossas crianças ainda não alcançaram um nível proficiente de leitura e escrita, fatores que contribuem para a exclusão social.
Por essas razões, discutir acerca das causas dessa situação e pensar em formas de promover a alfabetização plena dos brasileiros são ações de grande relevância nesse dia 8 de setembro, Dia Mundial da Alfabetização.

 

Um grande abraço!
Luciana Falkenbach
Assessora pedagógica da Editora Culturama

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¹ Documento de caráter normativo que define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica.